Amor, perda, luto e histórias que construímos ao longo de nossas vidas: nada pode nos separar disso

10/10/2011

Adriana M. Farias Binotto*

Segundo especialistas, o luto pela perda de uma pessoa amada é a experiência mais universal e ao mesmo tempo mais assustadora que vive o ser humano. Diante da perda de um ente querido podemos nos desorganizar, nos paralizar. Sentimos-nos desprotegidos, nosso mundo inteiro pode parecer ter mudado de repente… E na verdade mudou! À nossa frente, a vida parece vazia de significado e repleta de dor, tristeza, solidão… É comum questionarmos nosso relacionamento, nossas atitudes para com a pessoa falecida. Brigamos com Deus, brigamos com quem está querendo nos ajudar, nos irritamos ou ainda simplesmente silenciamos… Estamos diante do luto!

Viver o luto é deixar a dor ser dor. É um processo normal, importante para a saúde mental, que traz a possibilidade de nos reconstruirmos, de reorganizarmos nossos recursos emocionais e nos adaptarmos às mudanças trazidas pela perda. É um processo que demanda tempo, um tempo que é único para cada pessoa. Se compararmos a perda a um ferimento, o luto seria o processo de cicatrização. Assim como é necessário que a pessoa ferida receba cuidados, o enlutado requer acolhimento, atenção, escuta e validação de seus sentimentos.

O impacto da perda é sentido também nas relações familiares. Cada membro está diante de sua própria crise. O funcionamento do grupo e o papel que cada um desempenha altera-se significativamente. A comunicação nem sempre flui. Ao enfrentar o luto em família, é muito importante que esteja claro que cada pessoa vai sentir e reagir a seu modo. A intensidade das manifestações de sentimentos ou a presença de choro não são indicadores de quem está sofrendo mais ou menos, ou de quem gostava mais ou menos de quem faleceu. Há, por exemplo, a questão do gênero, com as mulheres tendendo a expressar mais seus sentimentos, e os homens a serem mais reservados. Para além dessa questão cultural, no entanto, cada pessoa tem seu jeito peculiar de reagir e de expressar seus sentimentos. E mais que as manifestações de sentimentos, as reações das pessoas, no conjunto do grupo, trazem as transformações, e a cada membro da família, novas responsabilidades e novas perspectivas também. No âmbito da família, em meio à diversidade de manifestações e reações, o reconhecimento e o respeito por parte de cada membro são de fundamental importância, para que não se perca em disputas e desconfianças esse que é um dos seus grandes recursos: a capacidade de compartilhar a dor.

O enlutado requer acolhimento e validação de seus sentimentos

Muitas vezes a ajuda, o carinho e o apoio que vêm da família e dos amigos, a crença religiosa e o convívio social por ela proporcionado são tudo de que as pessoas precisam para poderem se reconciliar com a vida. Cada caminho, no entanto, é próprio, é único. Por isso, para quem quer ajudar um enlutado, talvez o melhor seja perguntar a ele como quer ser ajudado. Dessa forma, ele se sentirá respeitado em sua autonomia, e também ficará claro que nosso desejo é apenas ajudá-lo. Digo isso porque o estado apresentado pelo enlutado muitas vezes provoca angústia, sensação de impotência e ansiedade nas pessoas a sua volta. Assim, muitas pessoas bem-intencionadas (mas desinformadas) abordam o enlutado manifestando que afinal o pior de sua dor já passou, que já é hora de “tocar uma estrada começa a se tornar visível com os primeiros e oblíquos raios de sol que penetram o nevoeiro. Por vezes, o enlutado estará voltado a sentimentos de tristeza, à busca de elementos de seu passado com a pessoa falecida; em outros momentos, estará tentando reconstruir, dar um novo sentido a sua vida, voltando a investir em novos vínculos. Uma das grandes preocupações do enlutado ao sair de seu processo de luto é a de esquecer seu ente querido, com medo de que sua memória e presença percam-se em meio aos novos acontecimentos e distrações da vida que segue. Acontece, porém, que em suas idas e vindas entre a dor e a esperança, ao longo de seu processo de luto, o enlutado descobre que a pessoa falecida na verdade está, e estará sempre, em sua memória, como parte de suas experiências que orientam cada movimento e decisão de sua vida a partir dali. Afinal de contas, a história que vivemos e construímos com quem amamos nada nem ninguém pode tirar de nós.

* Psicóloga Especialista em Intervenção, Teoria e Pesquisa em Luto

A criança diante do luto

19/08/2011

Karina Polido*

É consenso entre todos que perder uma pessoa amada é uma das experiências mais dolorosas e desafiadoras que se pode enfrentar. E quando se trata de uma morte importante na vida de uma criança? Surgem muitas dúvidas, sem falar na imensa angústia e impotência das quais são tomados os adultos ante os seus pequenos, tão frágeis, indefesos e já tendo que lidar com o sofrimento.

O que fazer? O que falar? Como falar? Aliás, deve-se falar alguma coisa? Estes são apenas alguns dos muitos questionamentos que costumo ouvir em minha experiência clínica.

Na realidade, precisamos considerar, antes de qualquer coisa, que a criança também se enluta, ou seja, sente e reage a uma perda importante à sua própria maneira. E esta reação dependerá de uma série de fatores, que terão o papel de facilitar ou de dificultar o seu processo de luto.

Dentre estes fatores, está a família, que exerce um papel fundamental no processo de luto da criança. Muitas vezes, o adulto, na intenção de proteger e poupar a criança do sofrimento – que ele próprio também está sentindo – acaba omitindo ou até mesmo mentindo a respeito da morte para a criança. O problema é que esta atitude, além de não auxiliar, pode prejudicar em muito o processo de luto natural da criança, uma vez que esta pode não ter a oportunidade de vivenciar este momento de reorganização e reconstrução, inerente à vida de todas as pessoas.

Desta forma, é principalmente no seio familiar que a criança poderá ser acolhida e compreendida, sentindo-se segura para expressar a sua dor. Não existe a maneira correta de agir, mas de forma geral, algumas atitudes facilitam a expressão dos sentimentos da criança. É importante explicar de forma que a criança entenda que a pessoa morreu, passando principalmente a ideia de que quando alguém morre, não volta mais. Dar informações a respeito da morte também minimiza as fantasias que a criança cria para entender o que aconteceu, principalmente a culpa, uma vez que pode-se sentir responsável ou até mesmo rejeitada, abandonada pela pessoa que faleceu. Incluir a criança no luto da família, possibilitando que a criança se despeça da pessoa, participando do funeral, se assim ela desejar.

Assim, pode-se dizer que o processo de luto da criança está diretamente relacionado ao da família, por isso a importância de os familiares suportarem e compreenderem as reações de suas crianças, sejam elas quais forem. Dependendo da idade e da maturidade emocional, a criança possui um entendimento sobre a morte, bem como reações proporcionais. É natural que a criança expresse sua dor através das brincadeiras, dos desenhos, do desempenho escolar. Importante ressaltar que o fato de a criança muitas vezes não verbalizar o que sente, não significa que não esteja sofrendo.

Em meio a toda esta mudança radical na vida da família, os adultos também encontram-se vulneráveis e em sofrimento, muitas vezes cobrando-se serem “fortes” e não permitindo-se demonstrar o que sentem aos pequenos. Compartilhar os sentimentos e até demonstrar fragilidade diante de um momento tão difícil é de longe sinônimo de fraqueza. Ao contrário, facilita para que a criança se sinta autorizada a expressar o que sente também, uma vez que é bastante comum que associe a sua dor ao desconforto e à tristeza dos adultos.

Da mesma maneira que o adulto, a criança necessita de tempo para adaptar-se à sua nova realidade e na medida em que vivencia o seu processo de luto pode estabelecer novas relações, sem que isto implique desligar-se afetivamente da pessoa que faleceu, mas sim transformar e eternizar sua relação com a mesma, permitindo que a pessoa continue fazendo parte de sua vida, de sua história.

*Psicóloga Especialista em Intervenção, Teoria e

Pesquisa em Luto – www.abclinicadoluto.com.br

Texto extraído da Revista In Memoriam, vol.1, n°2, p.7.

A hora da despedida

01/08/2011

Karina Polido*

Não existe uma regra que se aplique a todas as situações no processo do luto. Mas de forma geral, o cotidiano pode ser um importante aliado ao enlutado

A dor de perder alguém que amamos revela emoções intensas e desconhecidas. A falta de sentido existencial e a desorganização do cotidiano muitas vezes dão a impressão de que a vida nunca mais será a mesma. Mas o processo de luto leva a construir novos significados tanto para as experiências passadas, quanto presentes, transformando as vivências futuras.

Tentar entender o que a perda significa para o enlutado de forma cuidadosa e carinhosa ajuda muito mais do que julgar ou tentar adivinhar do que o enlutado necessita. Dessa forma simples, abaixo conferimos algumas das dúvidas e dilemas mais comuns no auxílio ao enlutado.

É importante participar dos rituais de velório e sepultamento/cremação?

Sim, pois o momento dos rituais permite ao enlutado se despedir da pessoa que faleceu, bem como, simbolicamente, se desculpar ou mesmo perdoar a pessoa, aliviando, assim, um possível sentimento de culpa. É claro que tudo isso é aos poucos internalizado ao longo do processo de luto. O cerimonial é apenas o início de todo um processo de adaptação à falta da pessoa que faleceu.

Além disso, este é um momento em que o enlutado pode compartilhar seus sentimentos, ter a sua dor validada e respeitada, viabilizando assim, uma rede de apoio social, ou seja, pessoas com as quais poderá contar.

Sendo assim, o comportamento de ir  ao cemitério ou columbário é saudável?

Isto vai depender muito do sentido que tem para o enlutado. Algumas pessoas sentem necessidade de fazer visitas mais frequentes ao cemitério ou ao columbário, mas isso não é indicativo de que estejam em melhor ou pior condição do que alguém que não o faz. O importante é que esta necessidade seja respeitada e o enlutado possa expressar seus sentimentos de forma autêntica.

De forma geral, ir ao cemitério ou columbário permite ao enlutado entrar em contato com a realidade da perda e com o falecido também. Por isso a ideia deste tornar-se um local de referência, onde o enlutado possa ir quando sentir necessidade e saudade.

A tendência é que, ao longo do processo de luto, esta necessidade aos poucos vá se acomodando e dando espaço para a transformação da dor, de modo que a pessoa consiga seguir em frente, sem que isso signifique o esquecimento da pessoa que faleceu.

Qual a duração do processo de luto?

As pessoas comumente fazem essa pergunta e entendemos que ela traduz um sentimento de ansiedade e desejo de retomar “a vida de antes”. No entanto, as pessoas precisam aceitar que a vida nunca mais será a mesma e que o enlutado também não, e por isso necessitará de um tempo para se adaptar a todas as mudanças ocorridas com a morte daquela pessoa. Uma vez que cada um tem os seus próprios recursos para enfrentar e reagir ao luto, não é possível determinar quanto tempo o processo irá durar.

E como saber se a pessoa enlutada precisa de acompanhamento psicológico?

É importante estar atento à proporção das reações que a pessoa apresenta. Embora cada um expresse o seu luto de maneira singular, sintomas como isolamento acentuado, transtornos do sono e do apetite, ansiedade e medo em demasia, quando manifestados de forma recorrente e contínua, podem indicar fatores de risco para o desenvolvimento de doenças. Nestes casos, é sempre aconselhável procurar também um médico que possa avaliar a condição física da pessoa.

Por este motivo é fundamental a presença de uma rede de apoio durante o processo de luto. Estar ao lado de pessoas de confiança, que proporcionem acolhimento e segurança auxilia muito o enlutado a também identificar estes fatores de risco.

Quais são as maneiras de ajudar o enlutado?

Costumamos sugerir que a melhor forma de auxiliar é perguntar ao enlutado como e se ele deseja ser ajudado. Assim, não se corre o risco de ser invasivo ou desrespeitoso e tampouco omisso para com o enlutado, que se encontra em situação de extrema fragilidade.

De um lado está o enlutado, queixando-se de que as pessoas o enchem de conselhos, não mais permitindo-lhe falar na pessoa que faleceu. Em contrapartida, as demais pessoas queixam-se de não saber o que fazer para ajudar o enlutado, que só deseja falar de um assunto: o falecido. Deixamos, então, uma sugestão: assumir saber o que é melhor para o outro nem sempre leva a bons resultados. Tentar entender o que a perda significa para o enlutado de forma cuidadosa e carinhosa ajuda muito mais do que julgar ou tentar adivinhar do que o enlutado necessita.

*Psicóloga Especialista em Intervenção,

Teoria e Pesquisa em Luto – CRP 07/16890

www.abclinicadoluto.com.br

Texto extraído da Revista In Memoriam, nº 3, p.8, 2011.

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