Nem parece morte

29/06/2012

O Bosque In Memorian está localizado no Crematório Parque Saint Hilaire

Há alguns anos começaram a pipocar no Brasil serviços que transformam os velórios em pequenos espetáculos, com execução de harpa ou violino ao vivo, chuva de pétalas de rosa, revoada de pombos, bufê, música ambiente, transmissão pela internet e efeitos especiais (em um auditório, parentes e amigos assistem ao caixão ser elevado por uma sistema mecânico até sumir por uma abertura no teto, como se chegasse ao céu). Como bem diz o proprietário de uma funerária ouvido pela Folha de S. Paulo, as empresas passaram a tratar a morte “como mais um evento social, nesse caso o último da pessoa e o mais importante”.

Crematórios não ficam atrás. As cinzas podem ser transformadas em pedras semelhantes a diamantes ou espalhadas pelo espaço sideral, graças à parceria de empresas brasileiras com funerárias americanas. Já uma artista plástica oferece também a possibilidade de pintar quadros usando as cinzas como uma de suas matérias-primas.
Mesmo as homenagens aos que se foram têm sido, digamos, repaginadas. Em alguns cemitérios de São Paulo, o Dia de Finados tem sido transformado em acontecimentos familiares nos quais psicólogos falam às crianças sobre o luto – não sem antes elas terem passado por pula-pulas e outros brinquedos típicos e “biscoitos da saudade” terem sido oferecidos aos visitantes. Cemitérios paulistas, aliás, têm se esforçado para se parecerem mais com aprques, com imensas áreas verdes nas quais se encontram os túmulos.

Em Porto Alegre, o Grupo Cortel é pioneira em serviços e diferenciais. Um dos principais diferenciais que compõem o serviço dos empreendimentos é a possibilidade de realização de cerimoniais diferenciados. São diversas alternativas disponibilizadas aos familiares e dentre elas se destaca a possibilidade de escolha de música de acordo com a preferência do ente querido ou da família, que vão desde os clássicos aos populares, além de outras opções de homenagens como o Forever, o Portal In Memorian, o Bosque In Memorian, opção de velório on-line, dentre outros.

Canção para você viver mais – Pato Fu

09/09/2011

Quando, o pai de Fernanda Takai, vocalista da banda mineira Pato Fu, ficou doente, em 1997, ela se debruçou sobre uma folha e tentou escrever uma canção que dissesse como ela se sentia. Tudo o que ela conseguiu, no entanto, foi o título, Canção para você viver mais. “Não conseguia colocar mais nada no papel”, diz Fernanda.

Foi John Ulhoa, guitarrista da banda e marido de Fernanda, que, a partir do título, compôs a música. “Ele apareceu com a letra pronta e disse: ‘Fui eu que escrevi, mas sei que é tudo o que você queria dizer para o seu pai’. É incrível como o John me conhece bem. Eu poderia ter assinado aquilo”.

O pai de Fernanda faleceu logo em seguida. Segundo a própria banda, isso fez com que a canção adquirisse “um sentido muito forte para todos que já perderam alguém querido”.

No vídeo abaixo, você confere Canção para você viver mais, na voz de Fernanda Takai.

Fonte: Folha.com

Partidas que inspiram

06/06/2011

“Cajuína”, uma das mais belas composições de Caetano Veloso, fala sobre a morte de seu grande amigo e um de seus principais parceiros na Tropicália, Torquato Neto – poeta, letrista, ator, cineasta e jornalista piauiense que morreu em 1972.

Torquato foi um dos mentores intelectuais do movimento tropicalista. Escreveu “Tropicalismo para principiantes”, onde defendeu a necessidade de criar um “pop” genuinamente brasileiro. Foi também letrista de canções do movimento, como “Geléia Geral”, musicada por Gilberto Gil. Em 1972, aos 28 anos, Torquato Neto trancou-se no banheiro e ligou o gás. Foi encontrado morto no dia seguinte pela empregada.  Caetano Veloso, que nesse período estava afastado do amigo conta como surgiu a inspiração para compor “Cajuína” depois de um reencontro com o pai de Torquado, Dr. Heli:

“Eu já o conhecia, pois ele tinha vindo ao Rio umas duas vezes. Mas era a primeira vez que eu o via depois do suicídio de Torquato.  Torquato estava, de certa forma, afastado das pessoas todas. Mas eu não o via desde minha chegada de Londres: Dedé e eu morávamos na Bahia e ele, no Rio (com temporadas em Teresina, onde descansava das internações a que se submeteu por instabilidade mental agravada, ao que se diz, pelo álcool).

Eu não o vira em Londres: ele estivera na Europa, mas voltara ao Brasil justo antes de minha chegada a Londres. Assim, estávamos de fato bastante afastados, embora sem ressentimentos ou hostilidades. Eu queria muito bem a ele. Discordava da atitude agressiva que ele adotou contra o Cinema Novo na coluna que escrevia, mas nunca cheguei sequer a dizer-lhe isso.

No dia em que ele se matou, eu estava recebendo Chico Buarque em Salvador para fazermos aquele show que virou disco famoso. Torquato tinha se aproximado muito de Chico, logo antes do tropicalismo: entre 1966 e 1967. A ponto de estar mais frequentemente com Chico do que comigo.

Chico e eu recebemos a notícia quando íamos sair para o Teatro Castro Alves. Ficamos abalados e falamos sobre isso. E sobre Torquato ter estado longe e mal. Mas eu não chorei. Senti uma dureza de ânimo dentro de mim. Me senti um tanto amargo e triste mas pouco sentimental.

Quando, anos depois, encontrei Dr. Heli, que sempre foi uma pessoa adorável, parecidíssimo com Torquato, e a quem Torquato amava com grande ternura, essa dureza amarga se desfez. E eu chorei durante horas, sem parar. Dr. Heli me consolava, carinhosamente. Levou-me à sua casa. D. Salomé, a mãe de Torquato, estava hospitalizada. Então ficamos só ele e eu na casa. Ele não dizia quase nada. Tirou uma rosa-menina do jardim e me deu. Me mostrou as muitas fotografias de Torquato distribuídas pelas paredes da casa. Serviu cajuína para nós dois. E bebemos lentamente.
Durante todo o tempo eu chorava. Diferentemente do dia da morte de Torquato, eu não estava triste nem amargo. Era um sentimento terno e bom, amoroso, dirigido a Dr. Heli e a Torquato, à vida. Mas era intenso demais e eu chorei. No dia seguinte, já na próxima cidade da excursão, escrevi Cajuína.”



Fonte: site de Caetano Veloso, site Tropicalia

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