Aproveitar a vida e suas dores

21/10/2011

Contardo Calligaris*

O texto reproduzido abaixo foi publicado na Folha em 29 de setembro deste ano. Nele, Contardo Calligaris “resenha” o livro de Roland Barthes, seu amigo pessoal, e disserta sobre o luto, a saudade e a ausência.

Com frequência, em conversas e entrevistas, alguém me pergunta o que penso da felicidade – obviamente, na esperança de que eu espinafre esse “ideal dominante” de nossos tempos.

Na verdade, não sei se a felicidade é mesmo um ideal dominante.

Claro, o casal e a família felizes são estereótipos triviais: “Com esta margarina ou com este carro sua vida se abrirá num sorriso de ‘folder’ ou de comercial”. Mas ninguém leva isso a sério, nem os que declaram que tudo o que querem é ser felizes.

Se alguém levasse a busca da felicidade a sério, ele se drogaria, e não com remédios ou substâncias de efeito incerto e insuficiente: só crack ou heroína -tiros certeiros.

O que resta é a felicidade como tentação, como uma vontade de cair fora, compreensível quando a vida nos castiga muito. Fora isso, minha aspiração dominante não é a de ser feliz: quero viver o que der e vier, comédias, tangos e também tragédias -quanto mais plenamente possível, sem covardia.

Meu ideal de vida é a variedade e a intensidade das experiências, sejam elas alegres ou penosas.

Há indivíduos que pedem para ser medicados preventivamente, de maneira a evitar a dor de um luto iminente. É o contrário do que eu valorizo; penso como Roland Barthes: “Luto. Impossibilidade -indignidade- de confiar a uma droga -sob pretexto de depressão- o sofrimento, como se ele fosse uma doença, uma ‘possessão’ -uma alienação (algo que nos torna estrangeiros)- enquanto ele é um bem essencial, íntimo…”.

O trecho está na pág. 159 de “Diário de Luto”, que acaba de ser publicado em português (WMF Martins Fontes, excelente tradução de Leyla Perrone-Moisés).

São as fichas nas quais Barthes registrou sua dor entre outubro de 1977 (a morte da mãe) e setembro de 1979 (poucos meses antes de ele mesmo sofrer um atropelamento cujas consequências seriam fatais).

Logo nestes dias, um amigo meu, Paulo V., está perdendo seu pai. Ele me escreve, consternado, que “nada sobrará” do pai: uma cadeira vazia, gavetas de roupas e papéis e que mais? A lembrança se perderá com a vida do filho, que não lhe deu netos e de quem também nada sobrará. A resposta que encontro, para meu amigo, é uma questão: por que uma vida não se bastaria, mesmo que não sobre nada e, a médio prazo, ninguém se lembre?

Barthes se pergunta se ele estaria escrevendo “para combater a dilaceração do esquecimento na medida que ele se anuncia como absoluto. O -em breve- ‘nenhum rastro’, em parte alguma, em ninguém” (pág. 110). Mas suas anotações não são um monumento fúnebre para a mãe.

Para Barthes, escrever é o jeito de abraçar a experiência, de vivê-la plenamente. Ele se revolta contra as distrações e as explicações consolatórias dos amigos; recusa as teorias que lhe prometeriam um bom decurso de seu luto (“Não dizer luto. É psicanalítico demais. Não estou de luto. Estou triste”) e foge, embora a contragosto, das crenças que apaziguariam a dor (“que barbárie não acreditar nas almas -na imortalidade das almas! Que verdade imbecil é o materialismo!”).

Enfim, Barthes chega quase a recear que o luto acabe, como se, além da mãe adorada, ele temesse perder também, aos poucos, sua experiência dessa perda.

Meses depois da morte dos meus pais, havia momentos em que eu lamentava que meus afetos e pensamentos voltassem “ao normal”, como se minha vida fosse mais pobre sem aquela dor. E havia outros em que, de repente, um detalhe me fisgava, até às lágrimas. Esses momentos eu acolhia com alegria.

Como Barthes anota, a dor do luto pode deixar de ser o afeto dominante, mas ela sempre volta, com a mesma força: “O luto não se desgasta porque não é contínuo” (pág. 92).

Falando em “detalhes” que fisgam, as anotações de Barthes reabriram a ferida de quando ele morreu, mais de 30 anos atrás.

De que sinto mais falta? Do timbre de sua voz e de duas coisas que, de uma certa forma, faziam parte do timbre de sua voz.

Sinto falta de seu gosto pela inconsistência das ideias e dos saberes (“proporcionalmente à consistência desse sistema, sinto-me excluído dele”, pág. 73).

E sinto falta de sua coragem para falar a partir da singularidade de sua experiência, sem a menor pretensão de erigi-la numa generalidade que valha para os outros.

Em suma, sinto falta dele, mas não é só que eu sinto falta dele, é que ele, ainda hoje, faz falta.

* Italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e ensaísta. Ensinou estudos culturais na New School de Nova York e antropologia na Universidade da Califórnia em Berkeley. Reflete sobre a cultura e a modernidade.

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Edgar Allan Poe: o mistério nunca morre

07/10/2011

Hoje, 7 de outubro, é o aniversário do falecimento de um dos maiores escritores de ficção de todos os tempos: Edgar Allan Poe.

Poe nasceu em Boston, em 1809, filho de um casal de atores. Conhecido como o primeiro grande escritor norte-americano, tornou-se célebre por seus contos e poemas, em grande parte abordando a temática do luto, todos inspirados na profundidade dos sentimentos e na complexidade da alma humana. Faleceu em Baltimore, no ano de 1849, de causas desconhecidas

Todos os anos, no aniversário de seu falecimento, um fã desconhecido deixa no túmulo de Allan Poe, em Boston, três rosas vermelhas e meia garrafa de conhaque, como uma homenagem anônima ao escritor.

“Os que sonham durante o dia são conscientes de muitas coisas que escapam aos que sonham somente à noite.” Edgar Allan Poe.

Fonte: Folha

A literatura ensinando as crianças a lidarem com a perda

21/09/2011

Foto: Pedro Dias

Através de sua tese de doutorado, a psicóloga Lucélia Elizabeth Paiva defende que os livros infantis podem ser grandes aliados, tanto da família quanto dos educadores, para o momento em que a criança começa a se questionar sobre a morte, ou ainda quando sofre uma perda e consequente período de luto.

Segundo a autora, é por volta dos cinco anos de idade que a criança será capaz de assimilar três conceitos básicos para compreender a ideia de morte: a universalidade, a não funcionalidade e a irreversibilidade. O assunto pode surgir entre as crianças de formas variadas, como a perda de um animal de estimação, de um familiar, ou até mesmo através de filmes e novelas. “Os educadores se mostraram inseguros em falar com as crianças a respeito, com medo de provocar tristeza ou ir de encontro aos valores religiosos familiares dos alunos”, diz a pesquisadora.

Por isso mesmo, Lucélia afirma que o uso de livros infantis, associados a rodas de conversas entre os alunos e aulas de ciência, fazendo com que eles compreendam o evento com naturalidade. Em seu trabalho, ela listou 36 livros, alguns nacionais e outros de autores estrangeiros, que tratam do tema e auxiliam na abordagem do assunto.

“Um exemplo é o livro Os Porquês do Coração, de Conceil C. Silva, que fala sobre a morte de um peixinho de estimação, e que mostra como uma criança lidou com a perda e a tristeza e transformou o desespero da falta em boas lembranças”, diz Lucélia. Outro livro que também chamou a atenção dos educadores foi “Quando os Dinossauros Morrem” de M. Brown, que, através de tirinhas e quadros sobre dinossauros, aborda diferentes aspectos, como a religiosidade, os rituais de despedida. Também destacados pela psicóloga são os títulos “Vovô foi viajar”, de M. Veneza e “Cadê meu avô”, de Lídia Carvalho, que “apontam para a importância de não se enganar a criança ao se contar sobre a morte de alguém. Ela fatalmente saberá que está sendo enganada e poderá ter a sua confiança abalada”.

Você pode conferir outros títulos da lista clicando neste link.

Fonte: USP

Os últimos dias de Machado de Assis

03/08/2011

Em 1908, Machado de Assis, considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos, então com 69 anos, se encontrava à beira da morte. Ciente disso, seu amigo e também escritor Graça Aranha escreveu uma carta ao editor do Jornal do Comércio, Félix Pacheco, deixando-o de sobreaviso a respeito do possível falecimento de Machado.

A carta, reproduzida abaixo, foi guardada por Félix até sua morte e, após isso, ficou em posse de sua filha por mais 70 anos. Só veio a público agora, mais de 100 anos depois de escrita.

O manuscrito nos mostra como foram os últimos momentos do fundador da Academia Brasileira de Letras, cercado por seus amigos e colegas de profissão, e também a forma poética e literária como a morte era vista, no início do século passado, pelos grandes nomes da cultura brasileira.

“Meu caro Felix,

Machado de Assis está a morrer. Não há mais esperança de ser salvo, porém a morte poderá demorar alguns dias. O seu espírito é inteiramente lúcido.

Tem havido verdadeira romaria em sua casa. Está constantemente acompanhado de amigos íntimos e amigos literários. Peço-te uma notícia simpática sobre o próximo fim de nosso maior homem de letras.

É preciso que haja alguém encarregado de escrever o artigo do Jornal sobre ele. Felizmente no Jornal há imaginação para os grandes fatos e não deixarão de tratar o Machado (como disse o Nabuco) como a palmeira do oásis deste deserto.

Por que não incumbem desse artigo o José Veríssimo, que é talvez o melhor conhecedor de Machado e sua obra?

Entre os que vieram hoje estava o Calmon.

Até agora o Barão do Rio Branco não tentou ir.

É provável que vá ainda. Indaga.

teu,

Graça Aranha”.

Fonte: Revista Piauí

Por um Fio

04/07/2011

Hoje nós trazemos mais uma sugestão de literatura para os leitores do Blog In Memoriam. É o Livro “Por um Fio”, do conceituado médico e escritor Dráuzio Varella, que virou inclusive peça de teatro.

O livro conta as experiências do médico ao longo de seus 30 anos de carreira; a convivência com doentes terminais, as formas que ele encontrou de lidar com a morte de pacientes, perdas de familiares e amigos, e com a idéia da sua própria morte, além das histórias de como as diferentes pessoas que encontrou em sua trajetória profissional encaram seus diagnósticos e a perda de entes queridos. Histórias reais sobre, principalmente, o apego à vida.

Confira abaixo um pequeno trecho do livro:

“Morte é a ausência definitiva. Tomei consciência desse fato aos quatro anos de idade, dois meses depois de ter ficado órfão. Estava sentado à mesa do café-da-manhã, encolhido por causa do frio; minha avó espanhola, de vestido preto, vigiava o leite no fogão, de costas para mim.
Naquela noite, tinha sonhado que passeava de mãos dadas com minha mãe por uma alameda de ciprestes que havia na entrada da chácara de meus tios, na rua Voluntários da Pátria, em Santana, um bairro de São Paulo.
– Vó, nunca mais vou ver minha mãe?
Sem demonstrar a solicitude habitual com que respondia minhas perguntas, ela permaneceu calada, cabisbaixa na direção da leiteira.”

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