A dor e as imagens

27/04/2011

Até que ponto a dor de familiares é notícia? Para um fotojornalista, o mais importante de sua profissão é registrar todos os momentos de um acontecimento, para dar a sensação aos leitores de um jornal ou site o entendimento completo do ocorrido. Porém, além dos jogos de futebol, shows em arenas, posses presidenciais e outras tantas notícias, o fotógrafo também cobre tragédias, reportagens policiais e enterros.

Segundo a fotógrafa Priscilla Buhr, uma das situações mais difíceis de fotografar são enterros, “principalmente os relacionados à violência”. O profissional vive o dilema de conviver com a tristeza e dor dos familiares da vítima, enquanto deve cumprir com a sua função: “É difícil não se sentir desconfortável, é difícil buscar boas imagens sem ser notado, sem ser indelicado, porque por mais que você tome cuidado em ser sutil, a sua presença ali muitas vezes é encarada para os familiares e amigos do morto, como um desrespeito. “Já perdi as contas de quantas vezes me chamaram de urubu e já perdi as contas de quantas vezes me senti como tal. Mas tenho meus limites, nem sempre consigo respirar fundo, ignorar os olhares duros e continuar fotografando. Tem hora que preciso abaixar a câmera e respeitar aquela dor. Mas ai surge o meu grande dilema: e se eu chegar no meu limite e abaixar a câmera e o fotógrafo da concorrência não?”

Esse conflito entre pessoal e profissional é muito bem relatado no livro o “Clube do Bangue-Bangue” que traz os depoimentos dos fotógrafos Greg Marinovich e João Silva. A publicação traz o relato da cobertura fotográfica dos conflitos civis que marcaram o período de transição entre o apartheid e a república democrática, com a eleição de Nelson Mandela para presidente, na África do Sul. Marinovich levanta um questão que se aproxima com essas situações de limite que os fotógrafos vivem no dia a dia de um jornal: Tragédia e violência certamente geram imagens poderosas. É para isso que somos pagos. Mas cada uma dessas fotos tem um preço: parte da emoção, da vulnerabilidade, da empatia que nos torna humanos se perde cada vez que o obturador é disparado.

Para Priscila, abaixar a máquina é antes de tudo respeitar a si mesmo. “Tem horas em que a gente precisa recuar e pronto. A minha hora talvez não seja a mesma do fotógrafo ao lado e muitas vezes não é, porque cada pessoa reage de um jeito diferente diante dessas situações. E eu não quero dizer com isso que um fotógrafo seja mais sensível ou humano do que outro, de jeito nenhum. O limite de cada um é diferente, apenas isso”.

Fonte: don´t touch my moleskine

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