Partidas que inspiram

06/06/2011

“Cajuína”, uma das mais belas composições de Caetano Veloso, fala sobre a morte de seu grande amigo e um de seus principais parceiros na Tropicália, Torquato Neto – poeta, letrista, ator, cineasta e jornalista piauiense que morreu em 1972.

Torquato foi um dos mentores intelectuais do movimento tropicalista. Escreveu “Tropicalismo para principiantes”, onde defendeu a necessidade de criar um “pop” genuinamente brasileiro. Foi também letrista de canções do movimento, como “Geléia Geral”, musicada por Gilberto Gil. Em 1972, aos 28 anos, Torquato Neto trancou-se no banheiro e ligou o gás. Foi encontrado morto no dia seguinte pela empregada.  Caetano Veloso, que nesse período estava afastado do amigo conta como surgiu a inspiração para compor “Cajuína” depois de um reencontro com o pai de Torquado, Dr. Heli:

“Eu já o conhecia, pois ele tinha vindo ao Rio umas duas vezes. Mas era a primeira vez que eu o via depois do suicídio de Torquato.  Torquato estava, de certa forma, afastado das pessoas todas. Mas eu não o via desde minha chegada de Londres: Dedé e eu morávamos na Bahia e ele, no Rio (com temporadas em Teresina, onde descansava das internações a que se submeteu por instabilidade mental agravada, ao que se diz, pelo álcool).

Eu não o vira em Londres: ele estivera na Europa, mas voltara ao Brasil justo antes de minha chegada a Londres. Assim, estávamos de fato bastante afastados, embora sem ressentimentos ou hostilidades. Eu queria muito bem a ele. Discordava da atitude agressiva que ele adotou contra o Cinema Novo na coluna que escrevia, mas nunca cheguei sequer a dizer-lhe isso.

No dia em que ele se matou, eu estava recebendo Chico Buarque em Salvador para fazermos aquele show que virou disco famoso. Torquato tinha se aproximado muito de Chico, logo antes do tropicalismo: entre 1966 e 1967. A ponto de estar mais frequentemente com Chico do que comigo.

Chico e eu recebemos a notícia quando íamos sair para o Teatro Castro Alves. Ficamos abalados e falamos sobre isso. E sobre Torquato ter estado longe e mal. Mas eu não chorei. Senti uma dureza de ânimo dentro de mim. Me senti um tanto amargo e triste mas pouco sentimental.

Quando, anos depois, encontrei Dr. Heli, que sempre foi uma pessoa adorável, parecidíssimo com Torquato, e a quem Torquato amava com grande ternura, essa dureza amarga se desfez. E eu chorei durante horas, sem parar. Dr. Heli me consolava, carinhosamente. Levou-me à sua casa. D. Salomé, a mãe de Torquato, estava hospitalizada. Então ficamos só ele e eu na casa. Ele não dizia quase nada. Tirou uma rosa-menina do jardim e me deu. Me mostrou as muitas fotografias de Torquato distribuídas pelas paredes da casa. Serviu cajuína para nós dois. E bebemos lentamente.
Durante todo o tempo eu chorava. Diferentemente do dia da morte de Torquato, eu não estava triste nem amargo. Era um sentimento terno e bom, amoroso, dirigido a Dr. Heli e a Torquato, à vida. Mas era intenso demais e eu chorei. No dia seguinte, já na próxima cidade da excursão, escrevi Cajuína.”



Fonte: site de Caetano Veloso, site Tropicalia

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